Nymphomaniac – Lars von Trier

Lars Von Trier é o melhor cineasta da atualidade. Sua filmografia já o coloca entre os grandes de todos os tempos. E como os bons artistas, melhora com o passar do tempo. Sua trilogia da melancolia: Anticristo; Melancolia e agora, o Ninfomaníaca é uma obra de muito fôlego, originalidade e profundidade. Assim como Ingmar Bergman (que creio tê-lo influenciado), o que ele faz é Literatura, em forma de cinema, mas é Literatura!nymphomaniac #1

Apesar de tudo o que se comenta, o filme não tem nada de apelativo ou pornográfico. Você não pode esperar de Lars Von Trier que ele lhe proporcione uma experiência voyeurística. Simplesmente não é a dele. Os prazeres que ele proporciona são de uma outra ordem. O deleite da arte. Até mesmo a cena de incesto com o pai, que poderia causar maiores comoções, é mostrada apenas em relance, sem quase revelar os personagens, e não tem nenhuma provocação: o incesto é praticado como uma boa ação para com o pai, para preenchê-lo em seu delírio no leito de morte. Sexo e morte, um bom prato para os psicanalistas.

Para um filme depressivo, bem que ele arranca umas boas risadas da plateia. As cenas de sexo são filmadas com um certo humor, e há momentos em que ele faz rir mesmo. Por exemplo, a cena da Uma Thurman no papel de uma esposa abandonada é um tanto estereotipada, mas se encaixa perfeitamente no contexto, e é hilária.

Ninfomaníaca é uma espécie de Kama-Sutra moderno, dá para aprender – homens e mulheres – um pouco sobre sexo. Como o Kama-Sutra, nem é muito erótico, nem carrega nenhuma culpa. O sexo é mostrado como algo natural, feito por fazer, assim como comer chocolate.

A personagem Joe se lança neste jogo do sexo na adolescência como uma rebelde sem causa: ou melhor, a causa é combater o amor supervalorizado  pela sociedade. A causa não perdura, assim como a turminha da juventude, mas Joe continua arraigada ao  sexo.

O que chama atenção em Joe é sua total falta de projeto de vida, no melhor estilo “Eu não tenho a menor ideia do que tou fazendo com minha vida”. Ela não sofre nem ansiedades nem angústias, não aspira a nada, não sofre com nada. É completamente blasé, desprovida de maiores emoções. Preenche sua vida com sexo, como quem não tem nada melhor a fazer. Não se comporta como uma viciada. Sexo parece ser apenas a melhor maneira de usufruir alguma coisa na vida, no mais desprovida, de significado, importância e prazer. Como rejeitou o amor, o que lhe resta?

Seu total descompromisso com a vida nos convida à reflexão: não deveria a vida — a nossa vida, esta que levamos — ser melhor, mais cheia de sentido e razão? Não vivemos uma vida muito pobre? Não deveríamos ter menos desejos e mais valores? Não deveríamos ser mais autênticos e menos influenciados socialmente?

O filme é contado em episódios e algumas cenas são verdadeiras obras primas. O episódio final em analogia com a polifonia de Bach é obra de arte. O filme termina com a protagonista não sentindo prazer quando faz sexo com quem ama (ou pelo menos, pensa que ama). Remete ao filme Shame, em que o personagem sexomaníaco falha em ter uma ereção justamente em sua única relação com amor. Os psicanalistas têm muito com que se ocupar até a segunda parte.

Sexo, amor e a vida são os temas entrelaçados de Ninfomaníaca. Lars Von Trier é o Aristóteles da contemporaneidade. Como um filósofo ético, o como viver a vida da melhor maneira possível é o tema de seus filmes. Mas, Lars Von Trier, diferente do Estagirita, não tem proposições a fazer. Ele denuncia o modo de viver contemporâneo como falso, hipócrita e vazio. O amor, associado ao sexo, é celebrado na sociedade como única forma de ser feliz, mas será mesmo? Joe desafia este predicamento e dá uma chave para decifrar sua opção logo na abertura do filme: Ela sempre ansiou por intensidade e sempre exigiu do por do sol mais cores do que este podia dar. A receita do amor normal não parece suficiente para ela. Sabendo do que não quer, mas sem a menor ideia do que quer, se lança ao sexo sem amor. O preço que paga é alto, pois o vazio não é preenchido e não há o conforto da solidariedade social, lhe restando a singularidade e a solitude.

O que nos reserva a aguardada sequencia prometida para março? A julgar pelo estado deplorável em que Joe é encontrada na abertura do filme, algo muito positivo não é. Esperemos, pelo menos , que a possibilidade de uma saída fique em aberto, mas não é provável. Lars Von Trier tem no pessimismo sua matéria prima, sua tática parece ser a de mostrar o pior da vida para que, assustados, procuremos alguma solução.

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